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Nos
anos 90, a existência humana passa a tomar um novo sentido:
a extensa divulgação da pesquisa internacional
do Genoma Humano[1], passa a alimentar um
novo imaginário, onde coabitam a esperança de
grandes avanços na medicina e a possibilidade de leitura
e manipulação irrestrita de qualquer característica
humana. O desvendamento do código genético humano
significa reduzir um organismo humano em uma seqüência
textual codificada, ou ainda, numa espécie de mecanismo
de informação, conforme HARAWAY (1994):
Nas
biologias modernas, a tradução do mundo para
um problema de codificação pode ser ilustrada
através da genética molecular, da ecologia,
da teoria da evolução biológica e da
imunobiologia. O organismo foi traduzido em problemas de codificação
genética e interpretação. A biotecnologia,
uma tecnologia da escritura, informa amplamente a investigação.
Num certo sentido, os organismos deixaram de existir enquanto
objetos de conhecimento dando lugar a componentes bióticos,
isto é, tipos especiais de mecanismos processadores
de informação.
Assim,
dentro da nossa contemporaneidade temos a intersecção
da codificação digital e da codificação
genética dentro de um mesmo conceito: a informação.
Assim, com os olhos na cibernética determina GARCIA
(2001):
A
informação é uma espécie de vetor
que vai permitir que se estabeleça um substrato comum,
que perpassa a matéria física, a matéria
viva e a máquina. Vai haver um terreno comum que vai
perpassando a vida, o físico e a máquina, e
esse terreno comum vai ser trabalhado através de uma
linguagem comum, coisa que não existia desde o tempo
de Newton. Não existia uma possibilidade de encontrar
qualquer explicação ou interpretação
do real que cobrisse todo o campo objetivo e agora, a partir
da cibernética, isso é possível, graças
à constituição da noção
de informação, o substrato comum a partir do
qual se pode entender o objeto técnico, o ser vivo
e o ser inanimado.
Dentro
destas questões de hibridismo informacional –
a quebra da barreira entre o natural e o artificial –
encontra-se a poética de artistas como Eduardo Kac,
pesquisador da arte transgênica, que transita entre
a biotecnologia e as redes computacionais. Para conhecer um
pouco mais desse universo, veremos alguns trabalhos e, mais
a fundo, a instalação Gênesis, apresentada
em 2000 no Instituto Itaú Cultural em São Paulo.
A
poética tecnológica de Eduardo Kac
Eduardo
Kac, artista nascido no Rio de Janeiro, mestre em Artes Plásticas
na The School of the Art Institute of Chicago (EUA), nos anos
80 começa trabalhando com performances de conteúdo
político e social, muitas vezes realizadas em espaços
públicos. Em 1983 foi um dos pioneiros na holopoesia,
em “busca de uma nova sintaxe, distante da visualidade
da palavra na página e do uso bidimensional da tela
do computador”[2].
O
desprendimento das suas criações em relação
aos limites da tela do monitor será evidente em toda
a sua produção: seus trabalhos mais recentes,
apesar de serem acessíveis através da Internet
– e conseqüentemente serem vistos através
de monitores – irão existir também na
esfera do real, seja por meio de instalações,
seja por meio de performances. Porém, através
da Internet, o visitante fisicamente distante poderá
realizar modificações em um ambiente remoto,
por meio de dispositivos em tempo real e web cams[3].
A rede será muitas vezes um canal de telepresença.
A
arte da telepresença será desenvolvida por Kac
a partir de 1986, na mostra “Brasil High Tech”,
no Rio de Janeiro, onde os participantes interagiam com um
robô controlado por controle remoto. Em 1989 –
ano da sua mudança para os Estados Unidos – começa
a desenvolver junto com Ed Bernett, “Ornitorrinco”,
onde, segundo o artista[4], une-se três
campos do conhecimento até então trabalhados
separadamente na arte: a robótica, as telecomunicações
e a interatividade. Este trabalho consistia em um robô
controlado por anônimos via Internet.
Em
1997, Kac atravessa uma nova fronteira[5],
que iria pontuar a sua produção a partir de
então: as questões da informação
artificial/natural, do biológico/tecnológico
iriam ser evidenciadas no trabalho “Time Capsule”,
realizado em São Paulo, na Casa das Rosas. O artista
passa a sintonizar-se em proximidade com a pesquisa de artistas
como Stelarc, que defende que o corpo humano encontra-se obsoleto
diante dos avanços tecnocientíficos e produz
extensões robóticas do corpo como a famosa “Terceira
Mão” (Third Hand) de 1981-94.
“Time
Capsule” que aconteceu no dia 11 de novembro de 1997,
consistiu na implantação pelo artista de um
microchip para a identificação de animais em
seu próprio tornozelo, contendo um número de
identificação acessível a aparelhos de
varredura[6] específicos, quando conectados
a Internet. A performance, que mobilizou toda a imprensa nacional
(sendo inclusive transmitida ao vivo simultaneamente pela
Internet e pelo canal de televisão UHF 21, de São
Paulo), aconteceu numa espécie de quarto de hospital
(o espaço físico da Casa das Rosas temporariamente
convertido), com o acompanhamento de um médico.
Em
uma das paredes do "quarto", várias fotografias
antigas da família de Kac, dizimada na Polônia
durante a Segunda Guerra, referenciam a memória. Inicialmente,
o artista justapõe memórias familiares, memórias
materializadas sob a forma de antigas fotografias com memórias
artificiais, memórias imateriais, segundo MACHADO (2001):
...Pode-se
ler a experiência de Kac (...) como sintoma de uma mutação
biológica que deverá acontecer proximamente,
quando memórias digitais forem implantadas em nossos
corpos para complementar ou substituir as nossas próprias
memórias. Esta última leitura é claramente
autorizada pela associação que faz o artista
da implantação de uma memória numérica
em seu próprio corpo e a exposição pública
de suas memórias familiares, suas memórias externas,
materializadas sob a forma de velhas fotografias de seus antepassados
remotos.
“Time
Capsule” suscita a justaposição dos paradigmas
digital e biológico numa relação de memória
como informação. Não tão centrado
nas codificações como “Gênesis”,
que veremos mais adiante, demonstra a memória genética
e a memória binária coabitando o mesmo ser.
Arte transgênica
Deste
trabalho para o início da arte transgênica foi
um curto período de tempo. Em 1998, surge o projeto
GFP-K9, onde GFP é a abreviatura de Green Fluorescent
Protein e K-9 é referencial ao adjetivo inglês
canino (canine). Trata-se da inclusão num DNA de um
embrião canino, uma proteína de medusa (Aequorea
Victoria) que tornaria o cão fluorescente – emanando
luz verde – ao contato com certas condições
do ambiente. Para justificar sua criação, o
artista estabelece o cão transgênico como uma
nova etapa na intervenção humana na existência
canina: desde 15.000 anos atrás, o homem vem selecionando
lobos portadores de características imaturas (processo
evolutivo conhecido como neotenia) e mais modernamente através
do controle de acasalamentos (MACHADO, 2001) para criar um
“ideário canino”.
Mais
tarde, Kac consegue realizar um trabalho equivalente ao GFP-K9:
o GFP Bunny. Seguindo os mesmos procedimentos do projeto anterior,
uma coelhinha albina torna-se fluorescente ao encontrar-se
em um ambiente com uma determinada iluminação
(precisa-se de um tipo de luz azul). Depois de nascida, o
próximo passo seria a socialização da
coelhinha: Kac pretendia levar-la para morar com sua família.
Mas o laboratório francês, que o auxiliou na
execução do projeto, simplesmente impediu sua
retirada, alegando que o artista não teria condições
de cuidar do animal transgênico. O artista por sua vez,
vem desenvolvendo várias manifestações
em prol da “Alba livre”, como forma de mobilizar
a opinião pública. No seu site[7],
inclusive, é possível enviar e acompanhar inúmeras
mensagens em prol da libertação de Alba. De
qualquer forma, uma considerável discussão –
envolvendo não só a sociedade científica
– foi formada diante desse fato.
Algumas
considerações de Kac sobre a arte transgênica:
Eu
proponho o uso da engenharia genética para transferir
gens sintéticos para micro organismos ou material genético
de uma espécie para a outra com o objetivo de criar
organismos vivos únicos e originais. A engenharia genética
permite ao artista criar novas formas de vida animal e vegetal.
A natureza deste tipo de arte se define não apenas
pelo nascimento de uma nova planta ou animal, mas pela qualidade
da relação que se estabelece entre o artista,
o público e o organismo transgênico. Trabalhos
de arte transgênica serão levados pelo público
para casa para serem plantados no jardim ou criados como animais
domésticos. Não pode existir arte transgênica
sem um firme compromisso e responsabilidade com a nova forma
de vida criada.[8]
Gênesis
Uma
segunda incursão do artista pela arte transgênica
se deu em Gênesis, apresentado inicialmente em 1999,
na Áustria, no evento Ars Eletronica e depois no ano
2000, no Itaú Cultural, em São Paulo.
O
trabalho constitui-se em uma instalação que
utiliza a rede como canal para interferências. A instalação
Gênesis constitui-se em uma sala de paredes escuras
com uma projeção de vídeo. Na primeira
parede, uma transcrição de um pequeno trecho
do antigo testamento onde é possível entender
uma possível "autorização"
divina para as intervenções da atual engenharia
genética: "Deixe que o homem domine sobre os peixes
do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os seres
vivos que se movem na terra" (Gênesis 1, 28). Em
outra parede, a transcrição do texto em inglês
para o código Morse e em uma terceira, a tradução
do código Morse para o código genético
DNA. Cria-se aqui um gene sintético, advindo do texto
bíblico. O crítico de arte Arlindo Machado,
um dos curadores da exposição, descreve o funcionamento
desta instalação:
O
gene sintético contendo o texto bíblico é,
em seguida, transformado em plasmídeo (anel de DNA
extracromossômico capaz de auto-replicação)
e então introjetado numa bactéria E. coli, que
o reproduzirá às próximas gerações.
As bactérias contendo o gene Genesis apresentam a propriedade
de fluorescência ciã (azul esverdeado) quando
expostas à radiação ultravioleta e coabitam
uma placa de Petri com outra colônia de bactérias,
não transformadas pelo gene Genesis e dotadas da propriedade
de fluorescência amarela quando submetidas à
mesma radiação ultravioleta. À medida
que as bactérias vão entrando em contato umas
com as outras, um processo de transferência conjugal
de plasmídeos pode acontecer, produzindo as seguintes
alterações cromáticas: 1) se as bactérias
ciãs doarem seu plasmídeo às amarelas
(ou vice-versa), teremos o surgimento de bactérias
verdes; 2) se nenhuma doação acontecer, as cores
individuais serão preservadas; 3) se as bactérias
perderem seus respectivos plasmídeos, elas se tornam
ocres.
O
processo de mutação cromática das bactérias
pode se dar naturalmente ou pode ser também ativado
por decisão humana, por meio da radiação
ultravioleta, que acelera a taxa de mutação.
No espaço da galeria onde ocorre a experiência,
tanto os visitantes locais como os visitantes remotos (que
participam do evento pela Web) podem ativar ou desativar a
radiação ultravioleta, interferindo portanto
no processo de mutação e ao mesmo tempo possibilitando
visualizar o estágio atual das combinações
de ciã, amarelo, verde e ocre. [9]
O
ato mais simples da atual interface computacional: o clique,
é o que diretamente altera as propriedades vitais das
bactérias expostas a radiação ultravioleta.
E sua simplicidade destoa de toda a idéia de complexidade
que temos quando pensamos numa intervenção genética.
É um ato simples, assim como um sopro.
Na
Internet, isoladamente a dimensão do trabalho tornava-se
outra. Ainda que houvesse um substrato textual eficiente –
como aconteceu no caso do Itaú Cultural – a assimilação
do trabalho dava-se muito mais numa tríade homem-máquina-bactérias.
Ao adentrar o espaço virtual do trabalho, o visitante
tinha diante de si, uma pequena tela com vídeo em streamming[10],
com imagens em tempo real, mostrando um círculo redondo
com pequenos pontos verdes, cianos e ocres. A ação
do visitante era pontual no que diz respeito a ele também
ser um ativo modificador de matéria viva. O ato de
manipulação genética – antes privilégio
de poucos – passa a ser intuitivo, sucinto, simples.
No
ato de simplicidade do clique, surge-me a idéia de
que a acessibilidade a essa nova dimensão da informação
– a genética – pode estar cada vez mais
perto da pessoa comum. Assim como ocorreu com o digital, teremos
em breve, ferramentas que facilitem o acesso a todos ao domínio
dessa nova forma de informação?
No
domínio das codificações, Gênesis
constitui-se em um grande exercício de tradução,
didático para visualizar e relacionar as fragmentações
mais comuns na cultura ocidental. Inicia-se na palavra, dotada
de significado, que é fragmentada em letras para em
seguida, ser traduzida para o código Morse –
um antigo antecessor dos atuais meios de comunicação
à distância, uma das origens da tecnologia de
comunicação moderna. Depois, o artista lança
mão de uma inteligente licença poética:
estabelece uma chave léxica simples para traduzir do
código Morse para o código genético e
assim estabelecer um caminho que independe da significação:
parte dos fragmentos, das letras e não do texto em
si, enquanto significação para estabelecer o
DNA dos plasmídeos. A atenção de todas
as etapas é mantida no fragmento, e conseqüentemente
na possibilidade de recombinação desses fragmentos.
Sobre esse ponto, as afirmações de GARCIA (2001)
são interessantes para estabelecermos uma possível
leitura do trabalho sobre esse aspecto:
Não
há mais, praticamente, trabalho que não seja
afetado, ou cuja maneira de ocorrer não tenha sido
profundamente alterada pela cibernetização,
pela informação digital. No campo do conhecimento
também há uma maneira nova de se pensar, de
produzir conhecimentos, que é através do que
algumas pessoas chamam de reprogramação, reordenação,
reprocessamento, recombinação. Cada vez mais
a própria cultura é concebida como recombinação.
Esse substrato comum, essa informação, que faz
parte do ser vivo, do ser inanimado e também do objeto
técnico, é caracterizada por aquilo que um filósofo
francês chamou de uma maneira muito interessante de
finito ilimitado. Ele entende por finito ilimitado um pequeno
número de elementos ou de componentes que permitem
uma combinação e uma recombinação
ilimitada. Por exemplo, na questão digital você
tem zero e um, mas com zero e um você consegue justamente
fazer, através de combinações e recombinações,
através da digitalização, mudanças
na maneira como se operam as coisas. Por outro lado, na informação
genética você tem quatro elementos, que são
as quatro letras a partir das quais se constitui, o código
genético.
A
recombinação da informação –
colocando num mesmo substrato texto, código Morse e
DNA – torna-se evidente numa das partes mais surpreendentes
do trabalho: a inversão do processo, onde o artista,
através do DNA das bactérias já modificado,
passa o código genético para Morse e em seguida
para texto novamente. O resultado é um texto corrompido,
mas com capacidades de estabelecer sentido:
Let
aan have dominion over the fish of the sea and over the fowl
of the air and over every living thing that ioves ua eon the
earth.
Diante
desse substrato comum, a informação, Gênesis
e outros trabalhos de arte transgênica, demonstram que
a arte pode caminhar no sentido de questionar/refletir uma
nova condição biológica que há
muito tempo já não é um domínio
exclusivo da ficção. Ao tornar-se tão
manipulável quando os caracteres binários, a
informação genética tende a cada vez
mais ser uma nova linguagem de expressão, de agregação
de sentidos, de sensibilidade. Mas se há uma espera
no sentido de algum tipo de postura crítica, denotando
caminhos alternativos para essa inevitável textualização
da vida será que devemos realmente assumir as práticas
em ascensão, as mesmas práticas passíveis
de crítica? É um paradoxo: a arte transgênica
incomoda e, ao mesmo tempo, impressiona.
Notas:
[1]
Mais informações sobre a pesquisa do Projeto
Genoma Humano podem ser acessadas em http://genome.gov.
[2]
Declaração do artista à jornalista Fernanda
Nidecker, Jornal do Brasil, 10 de junho de 2002.
[3]
Câmeras de baixa resolução específicas
para o uso na rede Internet.
[4]
Afirmação retirada do texto “Arte de telepresença
na Internet”, disponível no site do artista através
do endereço: http://www.ekac.org/ornitelep.html.
Visitado em 14 de novembro de 2002.
[5]
De certa forma, a fronteira do artifical/natural já
havia sido atravessada pelo artista através do trabalho
“A-positive”, do mesmo ano, em Chicago (EUA),
quando estabelece uma simbiose com um robô através
de compostos de seu próprio sangue. Porém, neste
trabalho ainda não existe a idéia de informação
biológica e digital num sentido mais essencial, como
acontece em “Time Capsule”. A relação
entre homem-robô se dá ainda num nível
mais complexo, sob a forma de componentes químicos
comuns a ambos. A idéia da informação
biotecnológica será necessária para o
entendimento do trabalho Gênesis, o foco de nossas considerações.
[6]
Quando escaneado por equipamentos específicos, o Identichip
poderia ser identificado pela Internet, onde era possível
saber várias informações sobre o animal
registrado (suas características, nome do dono etc).
No caso de Kac, ele registrou-se como dono e como animal ao
mesmo tempo.
[7]
Site de Eduardo Kac: http://www.ekac.org.
[8]
Trecho da entrevista de Eduardo Kac a Karla Mourão
para a revista “X news”, ano I, número
6, outubro de 1999. Disponível no site do artista em
http://www.ekac.org/kacxnews.html.
[9]
Texto disponível em http://www.itaucultural.org.br/exposicoes/trabalho_do_artista/kak/genesis00.htm.
[10]
Formato de vídeo compactado para a Internet.
Referências
bibliográficas:
BEIGUELMAN,
Giselle. Kac questiona o natural e o artificial em toda a
sua obra. Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, 04
de Julho de 2002.
GARCIA
dos Santos, Laymert. Panorama da arte cinética e tecnologia
no Brasil. In: Instituto Cultural Itaú – Apresentação
no Evento Arte, Ciência e Tecnologia, 2001. Internet:
http://www.ici.org.br/midiainterativa/artigo/laymertgarcia.pdf.
HARAWAY,
Donna. Um manifesto para os cyborgs: ciência, tecnologia
e feminismo socialista na década de 80. In: HOLLANDA,
Heloisa Buarque (org.). Tendências e impasses. Rio de
Janeiro: Rocco, 1994.
MACHADO,
Arlindo. Corpos e Mentes em Expansão in: O Quarto Iconoclasmo
(e outros ensaios hereges), (Rio de Janeiro: Contracapa, 2001),
pp. 70-93.
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