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Fora do Brasil desde 1989, o artista plástico carioca Eduardo Kac,
um dos principais nomes brasileiros em arte digital, está voltando
ao país para uma rápida visita. No mês de agosto ele
vai realizar em Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro uma palestra
sobre o seu trabalho. ìEu me mudei para Chicago nos primeiros dias de 1989
porque infelizmente não mais conseguia trabalhar com as dificuldades
de recursos disponíveisî, conta Kac, professor do The School of
the Art Institute of Chicago. Ele começou a trabalhar com arte e
tecnologia em 1983, com o projeto holopoesia, que explora as possibilidades
da palavra/imagem no espaço-tempo holográfico.
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Antes
de embarcar para o Brasil, Eduardo Kac conversou com o Obraprima.net.
Confira!
Obraprima.net
No início dos anos 80, década do retorno à pintura,
você criou uma série de performances e uma nova linguagem
poética, a holopoesia. Ao mesmo tempo, você integrou a exposição
Como
vai você, Geração 80?. Como foi conciliar duas
coisas a princípio tão diferentes?
Eduardo
Kac A idéia
de que a Geração 80 foi um fenômeno homogêneo
não reflete a realidade da geração que emergiu nesse
período. Paralelo àqueles que fizeram pintura, houve um grupo
de artistas (na maioria em São Paulo, embora eu fosse baseado no
Rio de Janeiro) que exploraram novas tecnologias e buscaram a criação
de novas linguagens. Meu trabalho anterior com performance compartilhava
do espírito livre e alegre que se costuma identificar com a Geração
80.
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OP
Que trabalho você apresentou na exposição Como
vai você, Geração 80?
EK
Um "outdoor"
voltado para dentro do parque, com as costas para a rua. Na época
eu também estava fazendo projetos públicos. O meu "outdoor"
exibido na Geração 80 seguia a linha de meus outros "outdoors",
na qual eu usava imagens do período cro-magnon. Para este "outdoor",
eu carimbei imagens cro-magnon à mão, cobrindo os 27 metros
quadrados da superfície do outdoor.
OP
O que é holopoesia, criada por você em 1983? Como tem
andado esse "projeto"?
EK
O projeto da
holopoesia foi iniciado em 1983 e concluído em 1993. O holopoema
é o poema concebido, realizado e apresentado holograficamente. Isto
implica dizer, a princípio, que ele se organiza no espaço
tridimensional e, à medida que o leitor o observa, se transforma
e dá origem a novos significados. Assim, ao ler o poema
no espaço, ou seja, ao caminhar
ao redor do holograma, o observador modifica constantemente a estrutura
do texto.
OP
O que você está preparando para o Centro
de Arte Hélio Oiticica? Vai ser um debate ou vai haver uma exposição
também?
EK
Será uma
palestra sobre meu trabalho dos últimos anos, intitulada "Telepresença,
Biotelemática, Arte Transgênica". Vão ser ao todo três
palestras no Brasil: dia 02 de agosto vou estar no Museu
de Arte Moderna da Bahia, em Salvador; dia 14 de agosto , no Itaú
Cultural em São Paulo e dia 22 de agosto, no Centro de Arte
Hélio Oiticica, no Rio de Janeiro. Não vou fazer nenhuma
exposição no Brasil este ano. Eu estou conversando com a
Galeria Nara Roesler, que me representa no Brasil, e tentando planejar
uma exposição para o futuro próximo.
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OP
Você poderia falar um pouco mais sobre a palestra? Você
costuma realizar palestras sobre seus trabalhos?
EK
A palestra vai
cobrir desde a arte da telepresença, que comecei a desenvolver no
Rio de Janeiro em 1986, até meu trabalho recente com a arte transgênica.
A arte da telepresença resulta do acoplamento de sistemas
de telecomunicação (rede telefônica, Internet) com
telerobos (robôs controlados aa distancia). A idéia básica
é que você tenha a experiência de um ambiente social
remoto através do corpo do telerobo. A Arte Transgênica se
baseia na criação de seres vivos novos através do
uso da engenharia genética, o que envolve não apenas questões
estéticas, mas também éticas e sociais. Faço
palestras ao redor do mundo com regularidade. Ao fim de 2002, terei feito
23 palestras, viajando por nove paises em cinco continentes.
OP
Há quanto tempo você dá aulas na The School of
the Art Institute of Chicago e em que medida dar aulas é uma influência,
um estímulo para o seu trabalho?
EK
Dou vários
cursos desde 1990. Também sou diretor do Programa de Holografia
e do Departamento de Arte e Tecnologia. Entre os cursos que dou, se encontram:
"Arte e Biotecnologia", "A Luz Como Meio de Criação na Arte",
"Historia da Arte Tecnológica", "Holografia", e "A Internet Como
Meio de Criação na Arte". Dar aulas serve como estimulo,
pois crio um ambiente no qual o dialogo é constante.
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OP
Como você vê a arte brasileira hoje?
EK
Tenho acompanhado
com felicidade o sucesso internacional de vários colegas da Geração
80, bem como de artistas de gerações anteriores, como Cildo
Meireles, que fazem sucesso internacional merecido. Vale mencionar
que os artistas brasileiros que trabalham com novas tecnologias continuam
ausentes das grandes mostras retrospectivas da arte brasileira (por exemplo,
a Brasil 500 Anos) e também dos livros de historia da arte brasileira.
Isto leva o publico a pensar que não existe uma arte tecnológica
no Brasil, o que não é correto. É preciso corrigir
esta lacuna para que se possa ter uma visão completa da arte brasileira
hoje. Propus um projeto de documentar a arte brasileira à Funarte
em 1985 e o projeto foi rejeitado. Em 1995, propus o mesmo projeto à
revista de arte Leonardo, editada pelo MIT Press, e o projeto foi aceito.
Desde 1995 tenho feito um levantamento exaustivo da arte tecnológica
brasileira e venho publicando o resultado na revista Leonardo e na Web
da Leonardo. Recentemente, este projeto se viu ampliado pelo trabalho do
Itaú Cultural, de São Paulo, que tem feito exposições,
palestras, concursos, etc nesta área, o que é excelente.
Uma visão da arte brasileira hoje que não leve em conta a
arte tecnológica é uma visão incompleta.
OP
Em que você vem trabalhando agora?
EK
Estou desenvolvendo
duas novas obras de arte transgênica, bem como uma obra publica para
a Universidade de Minessota.
Fernanda Lopes